Abril Verde: saúde física e mental são indissociáveis no ambiente de trabalho
anasiqueira
Ter, 07/04/2026 – 20:44
“Trabalho mais saudável e seguro para todos” é o slogan de 2026 da campanha Abril Verde da Justiça do Trabalho. A iniciativa destaca duas datas importantes: o Dia Mundial da Saúde, celebrado em 7 de abril, e o Dia Nacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho, em 28/4.
No âmbito do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT-15), a programação inclui ações de conscientização e debate ao longo do mês. Um dos destaques é o seminário “Abril Verde: novas realidades laborais e normativas”, que será realizado no dia 17 de abril, promovido pela Escola Judicial (EJud-15) em parceria com o Comitê Regional do Programa Trabalho Seguro.
Além das atividades formativas, as sedes judicial e administrativa do TRT-15 receberão a iluminação verde, em adesão à campanha. A iniciativa se estende a municípios da jurisdição como Bauru, Presidente Prudente e Ribeirão Preto, que já contam com iluminação temática em pontos estratégicos da cidade, incluindo espaços públicos, reforçando a mobilização coletiva em torno da prevenção de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho.
Segundo o desembargador Edmundo Fraga Lopes, gestor regional de segundo grau do Programa Trabalho Seguro no TRT-15, a campanha ganha relevância diante das transformações no mundo do trabalho. “O Abril Verde nos convida a refletir sobre uma realidade cada vez mais complexa, em que os riscos ocupacionais não se limitam ao ambiente físico. A saúde do trabalhador precisa ser compreendida de forma integral, considerando também os impactos psicossociais decorrentes das novas formas de organização do trabalho”, afirma.
Sete maracanãs lotados
546 mil pessoas lotam sete estádios do porte do Maracanã. Esse número revela uma realidade alarmante: segundo dados do Ministério da Previdência Social (MPS), em 2025, problemas de saúde mental levaram essa quantidade de pessoas a se afastar do trabalho.
O cenário estabelece um novo recorde, com crescimento de 15% em relação ao ano anterior, quando a ansiedade gerou 166 mil afastamentos e a depressão afastou 126 mil pessoas.
Com relação à saúde física, dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram mais de 1,6 mil mortes por acidentes de trabalho somente no primeiro semestre de 2025. De 2012 a 2024, foram registrados 8,8 milhões de acidentes e 32 mil mortes de trabalhadores com carteira assinada, segundo o Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (SmartLab).
Mais do que estatísticas, os dados comprovam que as pessoas estão cada vez mais adoecidas mentalmente e que as empresas precisam investir, de forma contínua, na prevenção e na promoção de condições adequadas de trabalho.
Saúde mental e física são indissociáveis
Segundo o juiz Cláudio Freitas, coordenador nacional do Programa Trabalho Seguro, há uma crise estrutural no meio ambiente do trabalho. “O adoecimento ocupacional assumiu proporções epidêmicas, e a realidade nos obriga a abandonar a visão fragmentada da saúde do trabalhador, pois saúde física e mental são absolutamente indissociáveis”, afirma.
Para o magistrado, o programa atua como um catalisador de uma mudança cultural necessária e urgente. “Nossa contribuição se dá, primeiramente, pela desmistificação de que a prevenção é um custo. Ela é um investimento básico para a sustentabilidade de qualquer atividade econômica.”
Riscos invisíveis
No mundo do trabalho do século XXI, saúde e segurança envolvem riscos invisíveis, como o estresse, o assédio, a hiperconexão e outros fatores que afetam a saúde e o bem-estar de trabalhadoras e trabalhadores. Ansiedade e depressão são causas cada vez mais frequentes de afastamento, impactando diretamente a produtividade, as relações sociais e a qualidade de vida.
De acordo com a psicóloga Denise Milk, especialista em saúde mental corporativa, esse cenário se agrava quando a produtividade passa a ser tratada como valor absoluto, e o ser humano é reduzido a sua capacidade de entrega. Segundo ela, o sofrimento psíquico ainda é fortemente estigmatizado e continua sendo visto como fraqueza, despreparo e até falta de vontade. “Isso acontece tanto na sociedade quanto dentro das empresas. Ainda existe uma cultura que valoriza quem ‘aguenta tudo’, quem não demonstra vulnerabilidade e segue produzindo mesmo às custas da própria saúde.”
Para a especialista, é necessário adotar uma abordagem mais ampla, que integre corpo e mente, com prevenção e acolhimento. “O problema também está nas organizações, que muitas vezes tratam a temática apenas como discurso institucional, sem revisão real das práticas de gestão”, observa.
Integridade biopsicossocial e mudança cultural
A prevenção de acidentes é essencial para proteger a integridade biopsicossocial de quem trabalha, reduzindo os riscos e contribuindo para preservar o equilíbrio psíquico. “Ambientes que priorizam a segurança e a organização do trabalho favorecem a sensação de proteção, reconhecimento e valorização profissional, com impacto positivo no bem-estar mental”, afirma Danielle Cristina Fragas Borba Almeida, médica do trabalho do Serviço Social do Comércio (SESC/DF).
Em agosto de 2024, a Norma Regulamentadora (NR) 1 do Ministério do Trabalho e Emprego passou a reconhecer os riscos psicossociais como riscos ocupacionais. Segundo Danielle, trata-se de um avanço relevante na gestão de saúde ocupacional. “A medida reforça a necessidade de uma abordagem integrada, preventiva e multidisciplinar. A prevenção desses riscos exige uma mudança cultural organizacional, com enfoque proativo, e não apenas reativo, ao adoecimento já instalado.”
Adoecimento não é individual
Jorge Machado, professor da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e integrante do Fórum Sindical em Saúde, Trabalho e Direitos Humanos, aponta que os riscos psicossociais se manifestam em diferentes setores. Na área de saúde, situações de assédio e falta de profissionais aumentam a sobrecarga emocional. No sistema bancário, metas abusivas geram um aumento expressivo nos casos de burnout. Já trabalhadores de limpeza urbana, submetidos a longos deslocamentos, baixa remuneração e condições insalubres de trabalho, estão mais sujeitos ao esgotamento e a doenças laborais.
De acordo com Jorge Machado, o adoecimento não é individual, mas resultado direto das condições de trabalho e de vida. Enfrentar esse cenário exige mudanças estruturais. “Isso envolve ações como valorização salarial, equipes adequadas, melhoria das condições materiais e ambientes de trabalho mais humanos”, assinala. “Não existe ambiente saudável sem respeito, e, no Brasil, isso passa necessariamente pelo enfrentamento das desigualdades de gênero, raça e território.”
Justiça do Trabalho
Em 2025, mais de 540 mil ações trabalhistas foram ajuizadas com temas relacionados às condições de segurança e saúde em ambientes de trabalho. Confira:
Doença ocupacional: 196.424;
Acidentes de trabalho: 170.152;
Assédio moral: 142.387;
Condições degradantes: 17.906;
Assédio sexual: 12.778;
Limitação de uso de banheiro: 4.362.
Trabalho Seguro
Durante o mês de abril, a sede do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT), em Brasília, também já está iluminada com a cor verde. Mais do que conscientizar para a prevenção de acidentes, a data amplia o debate sobre a necessidade de tratar a saúde de quem trabalha de forma integral.
O Programa Trabalho Seguro, em colaboração com diversas instituições públicas e privadas, é uma iniciativa conjunta do TST e do CSJT. Seu foco está na formulação e na implementação de projetos e ações em todo o país, visando à prevenção de acidentes de trabalho e ao fortalecimento da Política Nacional de Segurança e Saúde no Trabalho.
Com informações do TST/ Andréa Magalhães
